O projeto “História de Baião em Datas”, desenvolvido para o município de Baião, nasce precisamente dessa necessidade: organizar, contextualizar e comunicar séculos de história local através de uma abordagem integrada que cruza investigação científica, edição editorial e inovação digital.
Resultado de um trabalho aprofundado do historiador Joaquim Luís Costa, esta iniciativa materializa-se numa solução completa: uma monografia rigorosa e uma plataforma digital interativa, estruturada em torno de um friso cronológico que articula os acontecimentos locais com os contextos nacional e mundial.
Mais do que um registo histórico, trata-se de uma ferramenta de conhecimento, valorização identitária e transmissão de legado, pensada para servir a comunidade, apoiar o ensino e reforçar a afirmação cultural do território.
Nesta entrevista, exploramos o processo, os desafios e o impacto deste projeto, bem como o papel determinante da articulação entre história e design de comunicação na construção de uma narrativa clara, acessível e cientificamente sólida.
.P – Doutor Joaquim Luís Costa, ao trabalhar um período que atravessa milénios, que critérios usou para organizar a informação numa cronologia clara para o público?
JLC – De uma forma geral, a informação foi organizada seguindo a ordem temporal, do acontecimento mais antigo para o mais recente, permitindo que o público acompanhe a evolução “natural” da história de Baião.
.P – A estrutura em três níveis: mundo, Portugal e Baião, não é comum em projetos locais. Que valor acrescenta esta contextualização à leitura da história local?
JLC – Através desta relação cronológica enquadramos os acontecimentos locais no contexto nacional e mundial, porque muito do que se passa num concelho está diretamente relacionado com acontecimentos que ultrapassam as fronteiras desse concelho em estudo. Ou seja, a história de Baião nunca pode ser dissociada das outras histórias. Através da apresentação desta visão da história concelhia, consegue-se entender de forma ampla a evolução histórica de Baião.


.P – Quais foram os maiores desafios ao adaptar uma investigação académica, bastante densa, a um formato digital mais visual e acessível?
JLC – Foi acima de tudo tentar que a informação a disponibilizar estivesse numa linguagem simples e compreensível, pois pretende-se que seja um livro para todos! Esta foi uma das principais preocupações. Por vezes, as investigações académicas têm a tendência de ser uma “escrita para dentro”, ou seja, para quem é académico ou tem a mesma profissão, refletindo-se numa linguagem, por vezes, demasiado técnica, levando a que não chegue a todos os públicos.
Não estou a criticar esta forma de escrever história. Estou apenas a dizer que se queremos que a história chegue a todos, temos de recorrer a uma linguagem que seja o mais comum a todos. E a ideia deste livro era chegar aos mais novos, aos estudantes e ao público em geral. Deste modo, procurar descomplicar os acontecimentos através de uma linguagem e textos simples foi um dos maiores desafios.
.P – Numa era de “infobesidade” e desinformação, que importância tem uma plataforma histórica oficial e validada para a comunidade?
JLC – Atualmente, não faltam falsas narrativas que procuram reescrever a história aos mais vários níveis. Neste caso, através de uma plataforma suportada em factos históricos que foram validados por profissionais dá credibilidade e projeção a este projeto. Simultaneamente, como é uma plataforma que possibilita atualizações, os dados podem ser alterados conforme surjam novos factos que ajudem ou confirmem o passado.
.P – Que impacto pode este projeto ter na forma como a comunidade, incluindo públicos menos especializados, se relaciona com a história local?
JLC – O impacto é bastante positivo porque ajuda públicos menos afetos a trabalhos históricos a querer conhecer a história do seu concelho, porque como se baseia em cronologias – que, por norma, se estruturam em textos concisos – é uma boa maneira de chegar a todos, incluindo os que procuram informação concisa.
.P – No contexto escolar, como pode este projeto contribuir para o ensino da história local e para envolver os jovens com o (seu) território?
JLC – Este livro é uma ferramenta excelente para se conhecer, em primeiro lugar a história de um território, e, em segundo lugar, um excelente guia de estudo ou de preparação de atividades, atendendo que os acontecimentos se encontram estruturados cronologicamente, podendo-se analisar a sua evolução, caso seja o caso.
.P – Até que ponto é importante olhar para a história de um município como um processo em evolução e não como um registo fechado?
JLC – Quando falamos em História, a ideia vai sempre para o passado. E de facto assim é! Por exemplo, o que se passou há poucos segundos já é passado (embora recente). Mas a história é dinâmica… um concelho é dinâmico… E esta é uma das mais-valias deste projeto porque como tem uma plataforma que permite acrescentos e atualizações, possibilita que a história esteja sempre em construção e, desta maneira, chamamos indiretamente a atenção que a história de Baião está sempre em construção, ou seja, é uma história em evolução há, pelo menos, 250 milhões de anos!
.P – De que forma o trabalho de design e da arquitetura de informação influenciaram a forma como o público agora lê, navega e compreende a História de Baião?
JLC – O trabalho de design e de arquitetura de informação permitiu converter dados históricos em experiências visuais e interativas e acessíveis a todos.
.P – O que muda na forma como o público compreende a história quando tem acesso simultâneo ao livro físico e à plataforma digital?
JLC – A combinação do livro impresso e da plataforma digital cria uma experiência de aprendizagem que poderemos considerar de híbrida, onde os dois formatos se complementam para aprofundar a compreensão histórica.

.P – Do ponto de vista de um município, que valor acrescenta uma solução integrada – física e digital – na preservação da memória e na relação com os cidadãos?
JLC – O melhor de dois mundos: o livro impresso, o formato de excelência para quem gosta de ler, que não acabará, e que é sempre uma excelente prenda e um bom cartão de visita de um território; e o digital, para se compreender o contexto local com o nacional e mundial. Adicionalmente, e como já referido, o digital permite que se acrescente ou se atualize conhecimento, permitindo a constante escrita da história de um concelho.
.P – Que argumentos destacaria para convencer outros municípios a investir num projeto desta natureza?
JLC – Um concelho que adote esta solução evidencia, por um lado, que sabe preservar o passado e o presente, através do formato impresso, mas também evidencia, por outro lado, que é um concelho do futuro, pois transporta a sua história para o digital, permitindo o acesso independentemente onde estejamos.
HISTÓRIA DE BAIÃO EM DATAS
O projeto “História de Baião em Datas” consistiu na produção de uma monografia e de um friso interativo, que se complementam.